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Tomografia computadorizada e radiação: quando precisão diagnóstica exige mais proteção ao paciente

A tomografia computadorizada (TC) é essencial na medicina moderna, permitindo diagnósticos rápidos e precisos. Porém, seu uso crescente tem aumentado a exposição da população à radiação ionizante, especialmente em crianças e adolescentes. Embora não sejam a maioria dos exames radiológicos, as tomografias concentram a maior parcela da dose de radiação médica, o que preocupa diante das evidências que relacionam exposições repetidas ao aumento do risco de câncer ao longo da vida.

Foi nesse contexto que se desenvolveu a tese de doutorado do Prof. Max Well Caetano de Araújo, defendida em 6 de fevereiro de 2026 na Universidade Federal de Pernambuco, cujo foco central foi avaliar com maior precisão as doses de radiação recebidas por pacientes adultos e pediátricos em exames de tomografia computadorizada realizados na cidade de João Pessoa, na Paraíba. O trabalho lança luz sobre limitações importantes das métricas atualmente utilizadas nos serviços de saúde e aponta caminhos concretos para o fortalecimento da proteção radiológica.

Por que a dose de radiação em tomografia é uma preocupação?

Resposta) A tomografia computadorizada utiliza radiação ionizante, capaz de provocar alterações celulares. Embora seus benefícios diagnósticos geralmente superem os riscos, há preocupação quando as doses são superiores ao necessário ou quando exames são repetidos sem justificativa adequada.

O risco é maior para crianças, que são mais sensíveis à radiação e maior expectativa de vida, aumentando a chance de efeitos tardios, como câncer. Estudos internacionais apontam associação entre TC na infância e maior risco de leucemia e tumores sólidos. Por isso, organismos como a Comissão Internacional de Proteção Radiológica (ICRP) e a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) reforçam a aplicação do princípio ALARA, mantendo as doses tão baixas quanto razoavelmente possível.

E o problema das métricas tradicionais de dosimetria em TC?

R) Na prática clínica, a dose de radiação em tomografia costuma ser estimada por indicadores como o CTDIvol (Índice de Dose Volumétrico) e o DLP (Produto Dose-Comprimento). Esses valores aparecem automaticamente nos relatórios dos equipamentos e são amplamente utilizados para comparação entre protocolos e serviços.

O problema, como destaca a tese, é que esses indicadores não representam a dose real absorvida pelo paciente. Eles são baseados em medições realizadas em fantomas padronizados (blocos de material que simulam o corpo humano) e não levam em consideração o tamanho, o peso ou a composição corporal de cada indivíduo.

Na prática, isso significa que um mesmo valor de CTDIvol pode corresponder a doses muito diferentes em um adulto e em uma criança. Em pacientes menores, as doses podem ser significativamente maiores do que aquelas sugeridas pelos índices exibidos no equipamento.

SSDE: uma estimativa mais realista da dose no paciente

Para superar essas limitações, a Associação Americana de Física Médica (AAPM) introduziu o conceito de Estimativa de Dose Específica por Tamanho, conhecida pela sigla SSDE. Diferentemente dos índices tradicionais, a SSDE corrige a dose levando em conta o tamanho real do paciente, obtido a partir das imagens do próprio exame. "A minha tese aplicou esse método de forma abrangente, analisando mais de 1.300 exames de tomografia de crânio, tórax e abdome, realizados em pacientes adultos e pediátricos. Um dos diferenciais do estudo foi a comparação entre duas formas de estimar o tamanho do paciente: o diâmetro efetivo e o diâmetro equivalente à água, este último considerado mais preciso por refletir melhor a atenuação real dos tecidos", comentou o professor Max Well de Araújo.

Resultados que acendem um alerta

Os resultados do estudo são claros e preocupantes. Ao utilizar a SSDE, especialmente com base no diâmetro equivalente à água, constatou-se que:

  • Em pacientes adultos, as doses reais estimadas foram, em média, cerca de 50% maiores do que aquelas indicadas pelo CTDIvol.
  • Em crianças entre 1 e 10 anos, a diferença foi ainda mais expressiva, com doses mais de 100% superiores às estimativas tradicionais.
  • Os índices CTDIvol e DLP subestimam sistematicamente a dose em pacientes pediátricos.
  • Protocolos utilizados em crianças acima de 10 anos eram, em muitos casos, semelhantes aos protocolos de adultos, o que indica falhas no ajuste dos parâmetros ao tamanho do paciente.

"Esses achados revelam que, embora os serviços sigam práticas consagradas, há um risco real de exposição excessiva à radiação, sobretudo em faixas etárias mais vulneráveis", alertou o professor Max Well.

Impacto nos níveis de referência diagnóstica

Outro ponto central da tese foi a comparação dos resultados com os chamados Níveis de Referência Diagnóstica (NRD), que funcionam como parâmetros para identificar exames com doses acima do esperado. "O estudo mostrou que, quando avaliados com base na SSDE, alguns exames ultrapassam valores considerados aceitáveis, especialmente em adolescentes entre 10 e 15 anos. Isso indica a necessidade urgente de revisão e otimização dos protocolos, com ajustes mais finos de parâmetros como tensão do tubo, corrente e comprimento de varredura", pontuou o professor.

Proteção radiológica: da pesquisa à prática clínica

Mais do que identificar problemas, a pesquisa oferece caminhos claros para a melhoria da prática clínica. Entre as principais recomendações estão:

  • Ajustar protocolos de TC com base no tamanho e peso do paciente, e não apenas na idade.
  • Incorporar a SSDE como ferramenta complementar na avaliação da dose.
  • Fortalecer programas de educação continuada para profissionais das áreas de radiologia e diagnóstico por imagem.
  • Estimular o uso criterioso da TC, com rigor na justificação clínica dos exames.

Um avanço para a segurança do paciente

A importância do trabalho vai além dos números. Ao evidenciar as limitações das métricas tradicionais e demonstrar, com dados concretos, como a dose real pode ser significativamente maior do que a estimada, a tese contribui diretamente para o fortalecimento da cultura de segurança em radiologia. "Em um cenário de uso crescente da tomografia computadorizada, pesquisas como essa são fundamentais para garantir que o avanço tecnológico caminhe lado a lado com a responsabilidade ética e a proteção radiológica. O estudo reforça uma mensagem essencial: diagnosticar bem é fundamental, mas proteger o paciente é indispensável", finalizou Max Well de Araújo.

A tese do professor Max Well será depositada na Biblioteca Digital da Universidade Federal de Pernambuco e estará disponível para acesso público nos próximos meses. Os resultados do estudo já foram submetidos a uma revista científica especializada e, assim que publicados, tanto a tese quanto o artigo poderão ser acessados por meio deste site.

Max Well Caetano de Araújo

(Possui graduação em Tecnologia em Radiologia pela Faculdade Santa Emília de Rodat (2007), especialização em Proteção Radiológica pela mesma instituição (2009),
mestrado em Engenharia Biomédica pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE, 2015) e doutorado em Tecnologias Energéticas e Nucleares pelo Programa de Pós-
Graduação em Tecnologias Energéticas e Nucleares (PROTEN), do Departamento de Energia Nuclear da Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE).Atuou como
membro da Coordenação Regional de Educação e da Comissão de Proteção Radiológica do Conselho Regional dos Técnicos e Tecnólogos em Radiologia da 16 Região,
contribuindo para o fortalecimento das práticas de segurança radiológica e da formação profissional na área. Possui experiência nas áreas de Proteção Radiológica,
Tomografia Computadorizada por Feixe Cônico (CBCT), Tomografia Computadorizada Multislice, controle de qualidade de equipamentos emissores de radiação ionizante, bem
como em atividades de docência no ensino superior, coordenação de Curso Superior de Tecnologia em Radiologia e supervisão de estágios curriculares. Atua também em
pesquisa científica com ênfase em dosimetria, otimização de protocolos e segurança do paciente em exames de diagnóstico por imagem. Atualmente faz parte do grupo de
pesquisa para Níveis de Referência em Diagnóstico (NDRs) do comitê LatinSafe).

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